*23 DE MARÇO O DIA DA MANIPULAÇÃO HISTÓRICO-ESTRATÉGICA EM ANGOLA*
Memória aos Comandantes, Comissários Políticos, à LIMA e ao Soldado Anónimo; ao General Bock, Wambu, Kaximbombo, Wenda Katata, Tarzan, Ekolelo, Kibidy, Kimba, Sete, Osório, Bujarda, Mussily, João Bento, Dulce, Aninhas José, Kamorteiro, Vilingue, Veneno, Sheltox, Nino Katumbela, Tyuka, Pérola Katata, Elsa Samakuva, Lindinha Ngongo, Katumbangala, Big Jó, Serapião Carmona, Minga Pedro, Odeth Sorte, Ruth Ringote, Juaninha Buta, Sindako, Gil Satumbu; às Senhoras da LIMA em apoio à ofensiva no Hospital Tucker — Tita Miranda, Gertrudes Baka Mário, Laura Máquina, Yolandewa — e a tantas outras vindas da Jamba e da Likuwa que a memória já não alcança; a Sakutala (logístico), Valdez e a muitos outros que, a partir da Frente do Kuito Kuanavale e Kalapo, contribuíram decisivamente para travar e derrotar a ofensiva cujo objetivo central era atingir a Jamba.
Por Kamalata Numa
Foram muitos destes heróis que reduziram à insignificância uma batalha que hoje é narrada a partir do seu ponto de origem — o Kuito Kuanavale — e não do seu verdadeiro objetivo estratégico: a Jamba, então capital da resistência contra o social-imperialismo soviético-cubano. Perante isso, impõe-se a pergunta: afinal, em que ficamos?
Naquele tempo que ninguém esquece no sudeste de Angola, o vento soprava como quem conhecia segredos antigos.
Dizia-se que, todos os anos, no dia 23 de Março, a dita Batalha do Kuito Kuanavale regressava — não como memória, mas como debate.
Chilingutila foi o primeiro a chegar para falar da memória enganosa.
Trazia nos olhos a poeira dos caminhos e nas mãos um mapa dobrado tantas vezes que já não obedecia à geometria.
— A história — disse ele — não é o que se conta. É o que resiste ao que se conta, enganosamente.
Ben Ben riu, com aquele riso de quem já viu versões demais.
— Então hoje vamos assistir a quê? À verdade… ou à cerimónia?
Ao longe, aproximava-se Kamalata Numa, com o passo firme de quem conhece o terreno não pelos livros, mas pelos rastos. Atrás dele, quase em silêncio, vinha Renato Campos, como quem prefere ouvir antes de falar.
No centro do círculo, alguém colocou um rádio antigo.
Dele saía uma voz oficial, solene, repetindo uma narrativa já conhecida — organizada, polida, incontestável… pelo menos à superfície.
— Escutem — disse Ben Ben — a história quando veste uniforme.
Chilingutila ajoelhou-se e abriu o mapa.
— Aqui está o problema — murmurou. — Há mapas que contam movimentos… e há discursos que contam victórias.
Kamalata Numa apontou para o Leste, para linhas que não estavam no rádio.
— Nem todas as ofensivas chegam onde dizem chegar — afirmou. — E nem todos os objectivos são cumpridos só porque foram anunciados.
Renato Campos, finalmente, falou:
— A diferença entre estratégia e narrativa… é que a estratégia responde ao terreno. A narrativa responde ao poder.
O rádio continuava.
Agora falava de triunfo, de viragem histórica, de destino continental.
Ben Ben desligou-o.
— Estranho — disse. — Nesta versão, ninguém hesita, ninguém recua, ninguém falha. É uma guerra perfeita… sem humanidade.
Chilingutila levantou-se devagar.
— As guerras reais são feitas de incerteza. Quando alguém as transforma em perfeição… não está a explicar. Está a construir.
— Construir o quê? — perguntou Renato.
— Memória dirigida — respondeu.
O silêncio caiu por um instante.
Não um silêncio vazio, mas um silêncio cheio de perguntas.
Kamalata Numa voltou a olhar o mapa.
— O problema não é lembrar — disse. — É não poder questionar o que se lembra.
Ben Ben sorriu, desta vez sem riso.
— Então hoje não é o dia da batalha.
— Não — respondeu Chilingutila. — Hoje é o dia em que a história é repetida… até parecer indiscutível.
Renato Campos fechou os olhos por um momento.
— E o futuro? — perguntou. — Onde entra no meio disso tudo?
Chilingutila respondeu, olhando para o horizonte:
— O futuro começa quando deixarmos de ter medo de rever o passado.
O vento voltou a soprar. E, por um instante, parecia carregar duas histórias distintas — uma que sempre se repetiu em voz alta, moldada para ser aceite como verdade; e outra, mais silenciosa, ainda à procura de espaço, de coragem e de ouvidos atentos para finalmente se revelar.
Porque, ao longo dos últimos 50 anos de Angola, a mentira foi transformada em trilho dominante da narrativa histórica. Desde o desvirtuamento dos Acordos de Alvor até à construção da versão oficial do 11 de Novembro de 1975, ergueu-se um enredo que, mais do que contar a história, a moldou — afastando-a da verdade e adiando o encontro do país consigo próprio.
OBRIGADO
