A SENHORA QUE TINHA MEDO DA CAMA ARRUMADA NA REPÚBLICA MILUA

Por Kamalata Numa

Luanda, 08/06/2026

 

Na República Imaginária de Milua, existia uma estranha tradição política marcada pela arrogância e pela ignorância. Os dirigentes não eram avaliados pela sua competência, pela qualidade da governação nem pelos resultados alcançados em benefício do povo. Eram celebrados pelos dinheiros que desviavam do erário, pelas estradas de fraca qualidade que construíam, pelas escolas que erguiam ou pelos hospitais que equipavam, recebendo por isso muita micha. Contudo, o verdadeiro critério de sucesso político era outro: a quantidade de vezes que conseguiam repetir a mesma frase sem se rir e sem que os seus seguidores deixassem de acreditar nela.

A campeã nacional dessa modalidade era Dona Mbalu Muxima, dirigente veterana da Liga das Mamãs Organizadoras de Festas e Discursos. Mulher de voz firme, lenço impecável e convicções indestrutíveis, passava os dias a repetir uma única profecia:

— O Partido da Mata nunca chegará ao poder! Nunca! Nem em 2027, nem em 2037, nem em 2137!

O auditório aplaudia.

— Porquê? — perguntou certa vez um jovem curioso.

Dona Mbalu engasgou-se.

— Porque… porque… porque esteve muito tempo na mata e nós da cidade, mal percebemos isso de soberania popular!

O jovem coçou a cabeça.

— E isso significa exactamente o quê?

— Significa… significa que esteve na mata, Angola andou!

E os militantes presentes bateram palmas como se tivessem ouvido a melhor e mais profunda explicação filosófica desde Aristóteles.

A notícia espalhou-se rapidamente por Milua. Nos mercados, nas paragens, nos quintais e até nas filas do autocarro e do pão discutia-se a grande teoria.

— Então quem viveu na mata não pode governar porque fala de soberania popular?

— Parece que não.

— E quem viveu na cidade, pode por que se corrompe e corrompe tudo e todos?

— Parece que sim.

— Mesmo que tenha transformado a cidade em uma mata e a estrada asfaltada em um caminho?

— Parece que sim.

A lógica era tão revolucionária que ninguém conseguia compreendê-la.

Entretanto, vivia nos arredores da capital um velho professor chamado Kambinda. Homem de poucas palavras e memória longa, guardava caixas e caixas de fotografias antigas.

Quando ouviu a teoria da senhora Mbalu, decidiu organizar uma exposição fotográfica pública.

Na praça central colocou fotografias de diferentes épocas.

Mostrou imagens de prédios degradados, estradas esburacadas, sistemas abandonados, equipamentos enferrujados e longas filas para quase tudo.

Ao lado colocou outras fotografias: escolas improvisadas mas organizadas, oficinas, hospitais de campanha, bairros limpos e estruturas administrativas montadas em circunstâncias difíceis.

A população observava tudo em silêncio.

Dona Mbalu apareceu imediatamente acompanhada por uma comitiva de assessores especializados em aplausos.

— Isto é uma provocação! — gritou.

— Não, minha senhora — respondeu o professor. — São apenas fotografias.

— Fotografias podem ser perigosas!

— Sobretudo quando têm memória – respondeu o professor.

A multidão riu.

Foi então que o velho professor contou um antigo provérbio umbundu:

— “U opekela lavī ulimbukila ko ku yala.”

Muitos não compreenderam.

Então traduziu:

— Quem mal se deita, reconhece-se pela forma como arruma a cama.

A praça ficou em silêncio.

— O que quer dizer isso? — perguntou Dona Mbalu.

— Quer dizer que os hábitos revelam capacidades. A forma como alguém organiza uma pequena coisa pode dizer muito sobre a forma como organiza uma grande coisa.

A dirigente do MPLA respondeu imediatamente:

— Não acredito em camas!

A multidão voltou a rir.

Nos dias seguintes, a frase espalhou-se pelo país.

“Não acredito em camas.”

Transformou-se numa anedota nacional.

Quando uma rua ficava esburacada, alguém comentava:

— Deve ser porque não acredita em camas.

Quando faltava água ou luz:

— Deve ser porque não acredita em camas.

Quando um projecto milionário desaparecia misteriosamente:

— Deve ser porque não acredita em camas.

A situação tornou-se tão embaraçosa que o Conselho Supremo dos Repetidores de Frases, Conselho dos bajuladores, reuniu-se de emergência.

Durante três dias discutiram a melhor forma de responder.

No final apresentaram uma nova conclusão:

— O problema não é a cama.

— Então qual é?

— É o colchão.

Mas ninguém os levou a sério.

Enquanto isso, a população começou a fazer perguntas mais difíceis.

Não perguntava quem esteve na mata.

Perguntava quem organizou melhor os recursos que tinha.

Não perguntava quem usava determinado uniforme.

Perguntava quem apresentava melhores soluções para Angola.

Não perguntava quem governou ontem.

Perguntava quem poderia governar melhor o País amanhã.

E foi aí que Dona Mbalu percebeu o seu verdadeiro problema.

Durante anos, Ela, habituara-se a vencer debates não pela força dos argumentos, mas pela repetição de slogans e pelo recurso à violência como instrumento de intimidação e medo.

Mas agora as pessoas exigiam argumentos.

Os slogans envelheciam.

As perguntas permaneciam.

Numa tarde quente, sentada à sombra de uma mulemba, ouviu duas crianças discutirem.

— Quem vai ganhar a corrida entre o MPLA e a UNITA?

— Não sei – respondeu uma das crianças.

— Então como vamos descobrir – returquiu a outra criança?

— É simples. Vamos Fazer uma corrida – anuiu a outra.

Ao acompanhar este pensamento das crianças, a dirigente ficou pensativa.

Era uma ideia perigosíssima.

Porque numa corrida verdadeira não vence quem grita mais alto.
Vence quem corre melhor.

E naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Dona Mbalu teve dificuldade em dormir.

Talvez porque, lá no fundo, começava finalmente a suspeitar que o problema nunca tinha sido a mata.

O problema era a cama.

E a forma como ela tinha sido arrumada durante meio século.

OBRIGADO!

 

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