*QUENDA SOB INVESTIGAÇÃO: CONTRATOS DECLARADOS NULOS EM ANGOLA E SUSPEITAS SOBRE USO DO NOME DOS SERVIÇOS SECRETOS POLACOS*
De diplomata a empresária em Angola: trajetória de Malgorzata Szymczuk levanta questões sobre influência, contratos públicos e alegado uso de ligações à Agência de Segurança Interna da Polónia*
A história da Quenda Business Initiative em Angola está a levantar questões que ultrapassam largamente um simples diferendo comercial.
Contratos públicos posteriormente declarados inválidos pelo Estado angolano, a ascensão empresarial da antiga diplomata polaca Malgorzata Szymczuk, a existência de um processo em tramitação junto da Procuradoria-Geral da República de Angola e, sobretudo, alegações de que a empresária invocaria uma suposta ligação à _Agencja Bezpieczeństwa Wewnętrznego_ – ABW, Agência de Segurança Interna da Polónia, formam um quadro que exige esclarecimentos das autoridades dos dois países.
O jornal apurou que estão sob apreciação das autoridades angolanas matérias relacionadas com a Quenda e a sua responsável, envolvendo alegadas suspeitas de tráfico de influência, irregularidades financeiras, branqueamento de capitais e desvio de valores relacionados com contratos e pagamentos públicos.
*PRESIDENTE DA REPÚBLICA DECLAROU INVÁLIDOS CONTRATOS ENVOLVENDO A QUENDA*
O caso mais evidente encontra-se no Despacho Presidencial n.º 187/23, de 31 de Julho.
O Presidente da República, João Lourenço, determinou a cessação dos contratos envolvendo o consórcio constituído pela Quenda Business Initiative e pela CIPRO – Projectos, Fiscalização e Obras Especiais, Lda.
Não se tratava de pequenos fornecimentos.
Estavam em causa empreitadas relacionadas com uma das infraestruturas estratégicas mais importantes de Angola: o Novo Aeroporto Internacional de Luanda.
A consequência jurídica foi severa: caducidade da adjudicação e invalidade dos atos subsequentes, incluindo os contratos.
Não estamos, neste ponto, perante rumores.
Estamos perante uma decisão formal do Estado angolano.
*DA DIPLOMACIA AO NEGÓCIO*
Antes de se tornar empresária, Malgorzata Szymczuk foi diplomata da República da Polónia.
Exerceu funções em África e trabalhou na representação diplomática polaca em Angola, tendo sido cônsul da Polónia em Luanda.
A posição colocava-a no centro das relações institucionais e económicas entre os dois países e proporcionava contacto direto não apenas com autoridades angolanas, mas também com empresas e instituições polacas interessadas em desenvolver negócios em Angola.
Segundo informações recolhidas pelo jornal, durante o exercício das suas funções diplomáticas, Szymczuk teria aproveitado a sua posição institucional para desenvolver uma extensa rede de contactos com entidades económicas e financeiras polacas relevantes para operações internacionais.
Entre as instituições referidas pelas fontes encontram-se o _Bank Gospodarstwa Krajowego_ – BGK, banco estatal de desenvolvimento da Polónia, e a _KUKE_, instituição polaca especializada em seguros de crédito à exportação e instrumentos destinados a apoiar a internacionalização das empresas polacas.
Segundo as informações obtidas, contactos, conhecimento de projetos, empresas, mecanismos de financiamento e oportunidades comerciais desenvolvidos durante a atividade diplomática teriam posteriormente sido utilizados para benefício das estruturas empresariais associadas à Quenda.
Fontes consultadas pelo jornal sustentam ainda que, durante o processo de aproximação entre empresas polacas e entidades angolanas, Szymczuk teria adquirido conhecimento privilegiado sobre negociações e oportunidades comerciais que posteriormente acabariam redirecionadas para a sua própria esfera empresarial.
O jornal recebeu informações que apontam para alegada apropriação indevida de oportunidades comerciais, contratos e informação obtida através da posição institucional anteriormente ocupada.
*A QUESTÃO MAIS SENSÍVEL: A ABW*
Existe, porém, um elemento ainda mais delicado.
Fontes recolhidas pelo jornal afirmam que Szymczuk terá, em diferentes circunstâncias, invocado uma alegada ligação à _Agencja Bezpieczeństwa Wewnętrznego_ – ABW, a Agência de Segurança Interna da Polónia.
A ABW não é uma instituição comercial.
É um dos principais organismos responsáveis pela segurança interna do Estado polaco.
Segundo as fontes, Szymczuk teria utilizado a referência à alegada ligação aos serviços de segurança polacos para projetar autoridade, demonstrar acesso privilegiado ao aparelho do Estado polaco e reforçar a sua capacidade de influência perante interlocutores angolanos.
As mesmas fontes sustentam que essa alegada proximidade aos serviços de segurança da Polónia teria funcionado como uma espécie de credencial informal de autoridade e confiança, facilitando aproximações que, para uma empresária privada sem esse estatuto e sem experiência na área empresarial, poderiam ser substancialmente mais difíceis.
*PROCESSO NA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA DE ANGOLA*
O ponto mais grave desta investigação encontra-se, porém, em Angola.
Segundo informações obtidas pelo jornal, existe um processo em tramitação junto da Procuradoria-Geral da República de Angola envolvendo a Quenda e Malgorzata Szymczuk.
As matérias denunciadas incluiriam alegadamente tráfico de influência, movimentações financeiras consideradas suspeitas, eventual branqueamento de capitais, irregularidades na execução de contratos, incongruências financeiras e desvio de valores provenientes do Estado.
*O SILÊNCIO DA QUENDA*
Este jornal procurou contactar Malgorzata Szymczuk e a Quenda Business Initiative para confrontá-las com as questões levantadas nesta investigação, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.
