Corredor do Lobito e a urgência de Angola diversificar parceiros estratégicos
A história recente demonstra que a geopolítica raramente é neutra. Ela redefine alianças, altera fluxos financeiros e transforma projectos estratégicos em vítimas colaterais de crises que acontecem longe do seu território. O Corredor do Lobito, projecto emblemático de Angola e peça-chave para a integração económica regional, encontra-se hoje no centro dessa nova equação global.
Nos últimos anos, a União Europeia posicionou-se como um dos principais parceiros de África, anunciando uma abordagem renovada para o continente através da iniciativa Global Gateway, com a promessa de mobilizar até 150 mil milhões de euros em investimentos até 2027. Infraestruturas, energia, transportes, digitalização e cadeias de valor críticas faziam parte do pacote apresentado como sinal de uma parceria “entre iguais”.
Foi nesse contexto que, durante a Cimeira União Africana–União Europeia realizada em Luanda, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, elevou Angola ao estatuto de parceiro estratégico. No seu discurso, apontou o Corredor do Lobito como símbolo da nova visão europeia para África. Um eixo logístico capaz de ligar o Atlântico às regiões mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia, impulsionar o comércio intra-africano e apoiar a transição energética global através do acesso a minerais críticos.
Mais cedo, durante uma coletiva de imprensa na véspera da cúpula anunciada anteriormente, o embaixador da UE em Angola, Rosario Bento Pais, fez uma declaração alta. Ele disse que os investimentos europeus no corredor Lobito já ultrapassaram 2 bilhões de euros, combinando fundos públicos, garantias financeiras e mobilização de capital privado europeu. O projecto passou a ser apresentado como uma das principais vitrinas do Global Gateway em África.
Contudo, a realidade internacional mudou de forma abrupta.
A guerra na Ucrânia transformou-se na principal prioridade política, financeira e estratégica da Europa. Desde 2022, Bruxelas e os Estados-membros centenas de bilhões de euros já foram enviados para apoio militar, humanitário e para a futura reconstrução ucraniana. Estimativas recentes apontam para pacotes de apoio acumulados que já ultrapassam os 80 a 90 mil milhões de euros.
Este redirecionamento de recursos está a começar a ter efeitos visíveis fora do espaço europeu. Os analistas internacionais alertam que os compromissos financeiros assumidos pela Europa no valor de cerca de 2 mil milhões de euros correm o risco de diminuir drasticamente para valores insignificantes, próximos dos 200 milhões, uma vez que a Europa está a concentrar os seus esforços na Europa de Leste.
Para Angola, o sinal é claro e preocupante. Projectos estruturantes como o Corredor do Lobito exigem previsibilidade financeira, compromissos de longo prazo e estabilidade política dos parceiros. A dependência excessiva de um único bloco de investidores, sobretudo um bloco pressionado por uma crise geopolítica prolongada, expõe o país a riscos que podem comprometer prazos, encarecer custos e reduzir o impacto económico esperado.
É neste ponto que entra o factor americano.
Enquanto a Europa se vê forçada a reordenar prioridades, os Estados Unidos têm reforçado a sua presença económica em Angola com compromissos financeiros concretos. Para a modernização e expansão da linha ferroviária do Corredor do Lobito, ligando o porto do Lobito ao Luau, na fronteira com a RDC. Para a melhoria e desenvolvimento do Corredor do Lobito em Angola, abrangendo sectores como transportes, energia, agricultura e saúde.
Paralelamente, estende-se um projecto de energia solar no sul de Angola, reforçando a componente energética que sustenta o desenvolvimento industrial e logístico do país.
Com a presença de vários parceiros internacionais.
Primeiro, estas parcerias demonstram que o Corredor do Lobito não é apenas um projecto angolano, mas um activo geoestratégico global.
Segundo, confirma que diversificar parceiros não é um discurso ideológico, mas uma necessidade prática de sobrevivência económica.
Ainda assim, depender exclusivamente de um parceiro (Estados Unidos) seria repetir o erro da dependência excessiva de um único parceiro. O desafio de Angola não é trocar de tutela, mas construir um ecossistema diversificado de financiamento e cooperação.
Nesse sentido, o mundo árabe, particularmente os países do Golfo, surge como alternativa relevante. Fundos soberanos dos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Qatar dispõem de elevada liquidez e mostram interesse crescente em infraestruturas portuárias, corredores logísticos e energia em África, com uma abordagem orientada para o longo prazo e menor exposição a pressões geopolíticas externas.
Ao mesmo tempo, os BRICS, com destaque para a China, continuam a desempenhar um papel central no financiamento de grandes infraestruturas no continente. A experiência chinesa em caminhos-de-ferro, portos e corredores económicos oferece a Angola opções adicionais para garantir a continuidade e a expansão do Corredor do Lobito.
O Corredor do Lobito é demasiado estratégico para ficar refém das crises da Europa ou das disputas entre grandes potências. Ele representa integração regional, acesso ao Atlântico para países do interior, industrialização, emprego e reposicionamento geoeconómico de Angola.
Num mundo marcado pela instabilidade, vencerão os países que anteciparem mudanças e diversificarem alianças. A guerra pode estar longe, mas os seus efeitos financeiros já batem à porta. Angola tem hoje a oportunidade e a responsabilidade de agir antes que promessas de cimeira se transformem em oportunidades perdidas.
