NEM TODO ANEL DEVE SER USADO NEM TODA VONTADE DE LIDERAR DEVE SER ATENDID
No universo de O Senhor dos Anéis, o anel não funciona como um simples símbolo de poder, mas como um instrumento de revelação. Expõe aquilo que está escondido em cada pessoa e amplifica tanto as qualidades como as fraquezas. A sedução não é directa nem barulhenta, é progressiva e inteligente, criando a ilusão de controlo enquanto vai retirando lucidez. Quem olha para o anel apenas como uma oportunidade de dominar os outros já demonstra que não compreende o verdadeiro custo de o possuir.
Por: Aguinaldo de Oliveira
Frodo Bolseiro nunca procurou protagonismo nem poder, mas foi colocado numa posição em que teve de lidar com algo maior do que ele. Mesmo com sentido de dever, disciplina e apoio, foi sendo desgastado ao longo do tempo. Isto revela um ponto essencial que muitos ignoram quando falam de liderança, não basta ter boas intenções ou um discurso correcto. O poder testa consistência, resistência emocional e clareza de pensamento ao longo do tempo, não apenas no início.
Gollum representa o outro extremo, e talvez o mais perigoso. Não foi escolhido para carregar o anel, foi ele que escolheu o anel. Essa diferença muda tudo. O desejo transformou-se em dependência e a dependência destruiu a sua identidade. Na política, isso acontece quando alguém deixa de ver o cargo como missão e passa a encará-lo como propriedade pessoal. A partir desse momento, as decisões deixam de ser racionais e passam a servir interesses individuais disfarçados de propósito colectivo.
Quando se traz essa lógica para o contexto do MPLA, a vontade de assumir as estruturas de base, intermédia e central, deve ser entendida como um ponto de pressão máxima, não como um troféu. Trata-se de um espaço em que decisões têm impacto directo na vida de milhões de pessoas e onde erros produzem efeitos acumulativos. Quem encara esse lugar como conquista pessoal revela uma leitura fraca do que realmente está em causa. Liderar a este nível exige estrutura interna sólida, capacidade de dizer não a si próprio e controlo sobre impulsos que o poder tende a amplificar.
Existe também um erro recorrente que precisa de ser exposto com clareza. A ideia de que quem mais deseja liderar é automaticamente quem está mais preparado não se sustenta. Muitas vezes, esse desejo intenso revela o contrário. Pode indicar carências internas, necessidade de afirmação ou incapacidade de existir fora de uma posição de destaque. Quando essas motivações entram num sistema de poder, criam distorções graves nas prioridades e aumentam o risco de decisões baseadas no ego, e não no interesse colectivo.
A conclusão é simples e não deve ser suavizada. O critério nunca deve ser quem quer mais, mas quem suporta melhor o peso sem se desviar. Tal como no anel, o verdadeiro desafio não está em chegar ao topo, mas em manter a integridade depois de lá chegar. Nem todo anel deve ser usado e nem toda vontade de liderar deve ser atendida. Porque, quando o poder é maior do que a estrutura de quem o assume, o resultado não é liderança, é uma degradação lenta com impacto real sobre todos à volta.
