Aumento do custo de vida EUA. Até os menus de hambúrgueres mais baratos têm menos procura

A fatura da guerra no Médio Oriente chegou à Casa Branca: os números da inflação subiram 0,9 pontos em março em comparação com fevereiro. Dois terços dos americanos dizem estar muito preocupados com o custo dos alimentos e dos artigos de uso diário.


 
Trata-se do maior aumento mensal desde o choque inflacionista do verão de 2022, associado à recuperação pós-Covid-19 e à guerra na Ucrânia.

As expectativas de inflação para o próximo ano aumentaram de 3,8% para 4,8%. E, nos próximos cinco anos, também deverão continuar aumentar. As famílias americanas já não acreditam que os preços possam baixar rapidamente.

Esta situação reflete-se no sentimento dos consumidores: dois terços dos americanos dizem estar muito preocupados com o custo dos alimentos e dos artigos de uso diário. 30% não prevêm qualquer melhoria da sua situação económica. 38% prevêm mesmo uma deterioração.

Números muito maus para Donald Trump. O bilionário americano foi reeleito com a promessa de controlar o custo de vida.Uma economia “K” nos Estados Unidos

Os americanos não estão de bom humor e isso nota-se até nos restaurantes de fast food.
Durante muito tempo, cadeias como a McDonald’s atuaram como um amortecedor social, oferecendo refeições baratas, rápidas e acessíveis. Mas este modelo está a ser minado, mesmo antes de Trump. Entre 2019 e 2024, os preços da McDonald’s aumentaram cerca de 40% nos Estados Unidos. Como resultado, o número de clientes com baixos rendimentos diminuiu quase 10%: até a comida rápida se tornou demasiado cara para algumas camadas da população.

A revista americana Fortune propõe uma leitura ainda mais estrutural: o que o menu de três dólares reflete é uma “economia K”, duas trajetórias divergentes. Por um lado, as famílias abastadas continuam a consumir, frequentando cadeias de luxo e não sentindo verdadeiramente a pressão inflacionista. Por outro lado, as famílias modestas estão a tentar controlar todas as despesas, incluindo as mais triviais.

Por detrás deste menu a menos de três dólares, esconde-se uma realidade económica mais profunda: o enfraquecimento do poder de compra e um fosso crescente entre os consumidoresMcValue, um menu de 3 euros que, tal como o Big Mac, será certamente também analisado por economistas e investidores.Do “Índice Big Mac” ao OzempiCO índice Big Mac é um conceito que nasceu como uma piada. Em 1986, o The Economist publicou o que designou por Índice Big Mac: uma vez que o hambúrguer é produzido praticamente em todo o mundo com os mesmos ingredientes, o preço, em teoria, deveria ser idêntico de um país para outro, se as taxas de câmbio refletissem com precisão a realidade do poder de compra.

Mas hoje o Índice Big Mac diz outra coisa. Já não é apenas um indicador da paridade monetária. É um barómetro da erosão do poder de compra, num mercado que também está em turbulência.

Cada vez menos pessoas vão aos estabelecimentos de fast food, não só porque há menos dinheiro nas carteiras (e nas caixas do McDonald’s, diga-se de passagem). Têm também outras preocupações.

É aqui que entra a saúde. O aparecimento de medicamentos contra a obesidade como o Ozempic ou o Wegovy está a transformar o comportamento alimentar.
Milhões de americanos estão a recorrer a estes tratamentos. Estão a comer menos, a petiscar menos e a consumir menos produtos processados e altamente calóricos que constituem a base do modelo da fast-food. Os analistas começam a levar a sério esta variável: se estes medicamentos se generalizarem, o próprio volume de vendas poderá diminuir estruturalmente, independentemente do contexto económico.

Havia o Índice Big Mac. Agora o Big Mac está a ficar OzempicEm breve poderemos estar a falar do Índice Ozempic para medir a cura de emagrecimento da economia dos EUA.

Diane Burghelle-Vernet / 21 April 2026 10:00 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa

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